Publicado em: 06/11/2020

É uma pergunta interessante, e talvez nunca foi feita tanto como agora: sempre que um clube procura um treinador, levanta-se a questão do perfil. Que perfil procura ou qual o perfil que mais se adapta ao projeto. O problema é, que esse perfil, sem dúvida importante para definir alvos e decidir escolhas, normalmente é traçado de forma incompleta, sem profundidade e com pouco critério.

Um treinador já não é (alguma vez foi?) a idéia de jogo que tem, os treinos que dá ou o tipo de jogador que prefere e aposta, por isso resumir o perfil de alguém a, por exemplo, “o clube X quer um treinador com um estilo de jogo positivo” ou “o clube Y procura um treinador que aposte em jovens” é tremendamente incompleto. Mais do que isso, é não analisar como deve ser e descuidar características importantes que tornam um treinador mais ou menos competente, mais ou menos confiável.

Imaginemos um clube que está nas competições sulamericanas. Numa semana cheia, o treinador desse clube fala quatro vezes com os jornalistas. Ou seja, em quatro dias da semana é a voz do clube e essas intervenções são mais do que uma simples troca de perguntas e respostas; é o clube que está ali representado, pelo que tudo o que o treinador diz é associado ao clube, é o clube a falar, é uma declaração de intenções coletivas, é toda uma imagem que passa de dentro para fora. Deve isto ser negligenciado quando o tal perfil é construído? Durante uma temporada, não são os jogadores, nem os dirigentes que falam mais. É o treinador.

O treinador é, portanto, mais do que o responsável por treinar equipes e jogadores. É a cara de um clube, de uma equipe, até de uma idéia e de uma forma de pensar. Mas o treinador é ainda mais do que isso. É um líder, por isso a sua capacidade de liderança não pode ser ignorada. É um gestor, de modo que a maneira como gere e se relaciona é importante. É uma influência em todos os que o rodeiam e um exemplo: tudo o que ele faz, mostra ou diz tem sempre consequências, positivas ou negativas.

E não é só isso. O treinador não lida só com os jogadores. Lida com outros treinadores (a equipe técnica), com dirigentes, com equipes médicas, com funcionários de todo o tipo e, de maneira consciente ou não consciente, tem influência em todos eles. Os treinadores também lideram, lidam com a vitória e a derrota, influenciam, comunicam, dão a cara. E os clubes devem ter tudo isto em conta quando decidem pela pessoa que contratam para o cargo.

O Liverpool é um dos exemplos mais impressionantes de um clube que percebeu que o perfil do próximo treinador tem que ter qualidades que interfiram positivamente fora do campo e o impacto que alguém transformador a esse nível pode ter na evolução de um processo. Jurgen Klopp não mudou uma equipe, mudou um clube e todo o contexto envolvente. 

Marcelo Bielsa, no Leeds, é outro exemplo paradigmático: quem escolheu o treinador argentino sabia que ele ia mexer com tudo e bem para lá do campo.

Os treinadores têm este poder, responsabilidade, mas poucos o conseguem. Culpa deles, mas principalmente dos clubes que, por não saberem ou não quererem, não os escolhem tendo tudo isto em conta.

Neste sentido, os próprios treinadores devem perceber que o perfil de cada um é muito mais do que aquilo que se passa no campo, seja nos treinos ou nos jogos. É tudo o que fazem e dizem, é como se comportam, como reagem ou como lidam com as situações e as pessoas. O perfil é tudo isto. Sim, podem preferir um estilo de jogo mais ofensivo ou mais defensivo, mas quantos não há que têm essa mesma visão? Também podem dar treinos muito bons, mas, mais uma vez, quantos mais há que também dão treinos muito bons? Será isso que os tornará diferentes e fará deles a escolha certa?

Então, do que falamos, ou devíamos falar, quando falamos do perfil de um treinador?

O primeiro passo é perceber que o treinador é mais do que alguém que simplesmente dá treinos e joga de determinada maneira.


 

QUANDO FALAMOS DO PERFIL DO TREINADOR