Publicado em: 20/07/2020

Sim, são os jogadores que jogam, mas como eles jogam, o que fazem, como se comportam, como reagem ou como decidem vai muito para além deles, já não depende só deles. Dizer que os jogos de futebol são onze contra onze deixou de fazer sentido, de ser verdade quase; são confrontos entre estruturas, organizações, formas de trabalhar e equipas muito mais alargadas para além dos jogadores. O jogo começa antes de acontecer e é resultado disso. No início dos tempos, jogar futebol resumia-se a juntar pessoas, entregar-lhes uma bola e pronto. Não eram necessários treinadores, os treinos eram do mais básico que se possa imaginar. O jogo aí sim, era dos jogadores. Depois, a figura do treinador ganhou importância, o treino, a tática e a estratégia passaram a ter influência no resultado; mais tarde, as equipas técnicas expandiram-se, em número e em conhecimento, as estruturas diretivas profissionalizaram-se, as inovações apareceram e os resultados tornaram-se ainda menos previsíveis; hoje, pormenores como o sono, a alimentação, as cargas de treino, a capacidade física, o aspecto mental, as características pessoais ou os dados estatísticos são levados muito a sério. São trabalhados e otimizados ao máximo. Porque são diferenciadores e podem ser o detalhe que separa uma vitória de uma derrota. Ganhar ou perder tornou-se muito mais complexo, já não se explica apenas com a qualidade dos jogadores. Os jogadores continuam a fazer a diferença, nomeadamente quando a discrepância de qualidade é grande, embora, mesmo aí, já seja possível reduzir as distâncias com o que se faz fora do campo e que ajuda, ou não, os jogadores. Mas quando a qualidade é aproximada ou equiparável, normalmente são os pormenores que decidem o vencedor e esses pormenores estão cada vez menos nos jogadores e cada vez mais na qualidade dos treinadores e dos restantes profissionais integrados no dia-a-dia da equipe. O futebol de hoje tem psicólogos, especialistas em nutrição, em recuperação física ou em prevenção de lesões. O futebol de hoje é tanto físico e técnico, como tático, estratégico ou mental; envolve cientistas, tem treinadores de lançamentos laterais ou que ensinam como cabecear melhor, até gente que nem percebe o jogo porque não precisa para, mesmo assim, ser uma mais-valia. O que um jogador dorme e como dorme pode ser controlado. O profissionalismo, às vezes, é quase doentio. As análises são detalhadas até à exaustão. Por alguma razão é. Há cada vez mais áreas de intervenção vistas como capazes de otimizar o rendimento dos jogadores e eles jogam melhor ou pior dependendo da qualidade dos serviços e dos profissionais que têm à disposição. O jogo já foi só dos jogadores, mas já não é mais e, acredito, será cada vez menos. Porque é por aí que as equipas se podem destacar da concorrência. Entendo, por isso, que os clubes devem tentar fazer o máximo que podem, dentro do possível, para ajudarem os jogadores – isso deve ser uma prioridade para quem dirige, lidera e conduz projetos. É perfeitamente possível fazer com que jogadores normais pareçam bons e que jogadores bons pareçam muito bons. Quem trabalha com os jogadores pode, realmente, fazer a diferença e investir nessas pessoas faz todo o sentido, até porque requer menos esforço do que tentar encontrar o jogador ideal.

Tudo se treina e tudo é passível de ser desenvolvido e melhor aproveitado. E, pelo contrário, também tudo é passível de ser mal treinado e consequentemente mal aproveitado. Os jogadores bons podem jogar mal e os jogadores maus podem jogar bem. E não é por causa ou por culpa deles, mas devido ao contexto em que estão e ao que os rodeia.

Claro, é melhor ter os bons jogadores ou os melhores jogadores, mas nunca como agora esse fator foi tão pouco significativo. Vale de pouco ter os bons se depois não existir um contexto favorável, pessoas competentes a trabalhar com eles e outras ferramentas que os potencializem.

É possível aproximar distâncias e reduzir diferenças graças ao que se faz fora do campo, e os detalhes que desequilibram estarão cada vez mais aí. O jogo já não é só dos jogadores. Nem deve ser.

Por Vasco Samouco.


O Jogo já não é só dos jogadores