Publicado em: 16/02/2021

A tomada de decisão no futebol é tentar perceber porque é que uns jogadores decidem melhor do que outros é um dos temas que mais me interessa e numa conversa de alguns dias veio-me à cabeça estas dúvidas sobre o “pensar rápido”. Se ele existe neste sentido, tem lógica usar a expressão no futebol, mesmo sabendo que o futebol é um jogo de decisões e que quem tomar as melhores decisões está mais perto de ganhar.

Decidir bem é fundamental, claro. E se for bem e rápido, melhor. Mas decidir bem não é mesmo que decidir rápido. Tal como pensar bem não é o mesmo que pensar rápido. O importante não é pensar rápido nem decidir rápido, o importante é pensar bem e decidir bem para executar rápido.

Quando se diz – e não são tão poucas vezes assim – que alguém tinha que pensar rápido e encontra nisso a justificação para uma perda de bola, ou que demorou a decidir (coisas que eu também já disse), parece-me, agora, que o que se deve dizer é que devia ter pensado antes para depois decidir e executar automaticamente, de maneira não-consciente.

Por exemplo, em treinos em espaços curtos, com limitação de toques (um ou dois), estou tentado a acreditar que aqueles que melhor se saem não “pensam rápido”, mas “pensam antes”. É o tal saber o que se vai fazer, antes sequer de a bola lhes chegar. Eles não decidem quando tocam na bola (será possível, a jogar a um toque, executar ao mesmo tempo que se pensa no que se vai fazer?), decidem antes de a bola lhes chegar.

Os melhores jogadores parece que pensam mais rápido e decidem mais rápido do que os outros, mas o que eles fazem não será pensar (ler, antecipar, interpretar) antes e decidir antes para executar rápido? O que os distingue não é ver coisas que os outros não vêem? E é mais provável que vejam essas coisas quando têm a bola e estão a executar, ou é mais provável que as vejam quando não a têm, nas alturas em que dispõem de mais tempo para pensar/analisar?

Todas as decisões, conscientes ou não-conscientes, são consequência de pensamentos e os melhores jogadores não são os que decidem rápido, mas os que decidem melhor, logo são os que pensam melhor. E pensar melhor, quando a seguir vem uma decisão, é pensar antes. É ver, perceber, interpretar o que se está a passar para tentar prever ou até criar o que se seguirá. Os que o conseguem parece que estão à frente no tempo.

Por Vasco Samouco.

Futebol: Decidir bem (e rápido) exige pensar bem?