Publicado em: 15/08/2017

O Triangulando entrevistou o técnico Claudio Roberto, atualmente no Monte Carlo do Macau, ex-treinador da seleção do Sri Lanka e vitorioso no estado do Mato Grosso do Sul. Ele contou um pouco da sua carreira, o convite de treinar uma seleção. experiências em Macau e sua visão sobre o mundo futebolístico. Confira abaixo:


1 – Por favor, poderia nos contar um pouco da sua trajetória, a preparação, o começo no Paraná e Espirito Santo, e depois se tornar um dos treinadores mais vitoriosos do estado do Mato Grosso do Sul, com tricampeonato e dois acessos?


Minha trajetória no futebol em comissão técnica de equipes de futebol se deu através de um amigo Treinador que chama-se Elói Kruger que foi quem me incentivou e me deu a primeira oportunidade. Na ocasião eu estava na graduação estudando no curso de Educação física em Cascavel – Paraná. Iniciei como preparador de goleiros e depois fui transitando para outras funções até estar Treinador com passagem por categorias de base e posteriormente em equipes profissionais. No Mato Grosso do Sul foi onde eu mais tempo fiquei e sou grato aos clubes e especialmente ao EC. Águia Negra onde eu fui primeiro campeão em 2007 como preparador físico, já na segunda passagem foram 3 anos 2011 a 2013 onde fomos campeões estaduais novamente em 2012 levando a equipe novamente ao cenário nacional. Depois acumulei duas passagens pelo Corumbaense com 2 acessos. Faltava trabalhar na capital do estado e foi lá que em 2014 fui trabalhar e ser campeão estadual mais uma vez desta feita pelo CENE. Ainda tive uma passagem pelo Sete de Setembro em 2014. Sem dúvida que devo grande parte da minha carreira ao futebol do Mato Grosso do Sul. Ainda como Treinador trabalhei em 4 estados no Brasil, Seleção Nacional do Sri Lanka e a dois anos estou trabalhando no futebol de Macau – China.


2 – Você comandou uma seleção nacional, a do Sri Lanka. E o método de pesquisa utilizado para se credenciar a esta seleção foi bem peculiar, como foi a candidatura, negociação, apresentação, adaptação ao pais e os jogos realizados?


A minha ida para o futebol da Ásia tinha como objetivo principal ter contato com uma outra cultura futebolística. Para isso fiz um estudo dos países emergentes e por iniciativa própria comecei enviar meu cv e uma apresentação que abordava meu método de trabalho. Após insistentes e-mails recebí um comunicado da Federação do Sri Lanka que solicitou informações adicionais sobre minha trajetória profissional no Brasil e a partir disso iniciamos um diálogo que foi cada vez mais nos aproximando em termos de idéias para desenvolver um projeto de desenvolvimento para a Seleção principal e também na formação. Na sequencia a proposta de 2 anos veio e depois de dois meses conversando e trocando informação chegamos num acordo, na realidade eu nem discutí valores, o que eles propuseram eu aceitei de imediato porque queria muito aquela chance. Junto comigo levei um preparador físico o professor Guilherme Jr e juntos nos apresentamos. Na nossa chegada fomos muito bem recebidos pelo Secretário Geral que foi nos apresentando todo contexto que viríamos a enfrentar em termos de trabalho e qualidade de vida no país. Inicialmente quando chegamos a Seleção não tinha competição oficial, portanto tínhamos tempo para observar jogos da Liga conhecer os jogadores e estabelecer um plano para competir no segundo semestre daquele ano. Foram 17 jogos com 13 vitórias e quatro derrotas considerando jogos de preparação e a SAFF a Copa do Sul da Ásia.


3 – E como foi sua ida á Macau e a adaptação ao futebol e cultura do pais? O Monte Carlo terminou a temporada como vice campeão da Taça e da Liga. Pretende continuar no clube e comandar a seleção de Macau algum dia?


Minha ida a Macau tem a ver com um amigo Treinador português de futsal chama – se José Gerardo que é também amigo dos dirigentes do Monte Carlo. Numa ocasião eles se encontraram em Portugal e foi comentado que necessitavam de um Treinador estrangeiro para dirigir os canarinhos e este meu amigo me indicou. Com relação a minha adaptação foi tudo muito rápido porque o clube tem um ambiente familiar e eu me identifico muito com isso. Já são duas temporadas sob o meu comando e eu penso que o trabalho de todos a dedicação e a filosofia do clube nos faz caminhar juntos e nesta temporada já começamos a colher os frutos com bons resultados e com um futebol agradável de se ver. Aqui no Monte Carlo está claro para todos primeiro o processo depois o sucesso. Isso tem relação direta com a integração e o aproveitamento dos jogadores da formação. Agora mais integrado as particularidades do futebol de Macau conhecendo e vivenciando o dia-dia eu acredito que há muita margem para crescer e se desenvolver. Ainda temos objetivos a alcançar com o Monte Carlo e depois sim estabelecer uma nova meta, um novo objetivo de carreira que passa sim por novos desafios. Se um dia eu for lembrado para ser Treinador da Seleção de Macau vou ficar muito feliz. Porém agora tem um Treinador lá e precisamos apoiá-lo.


4 – A Alemanha, além do belíssimo futebol, ficou famosa devido a integração entras as categorias de base e a seleção principal. O quão uma padronização no estilo de jogo pode ser importante para o fortalecimento de uma seleção, tendo em vista sua experiência no Sri Lanka?


Na minha modesta opinião a palavra integração tem a ver com conceitos, idéias e princípios. Quando se tem um plano e uma linha de trabalho em que todos pensam e trabalham nesta direção a tendência é caminhar para bons resultados. Neste momento nós temos referenciais que podem servir de exemplo para os países emergentes. A Alemanha, Espanha e Portugal já caminham nesta direção e comprovadamente com bons resultados. O segredo é investir na qualificação dos profissionais e não ter medo de romper paradigmas.


5 – Constantemente usamos a expressão “abismo tático” ao compararmos Brasil e Europa. Mas e em relação aos países emergentes (Sri Lanka, Macau e os demais da Ásia) com o Brasil, existe um “abismo” entre as regiões?


Em geral aqui na Ásia em termos táticos as equipes tem boa organização. Há países que estão evoluindo e crescendo baseado num plano MACRO. Nos países emergentes esse processo é bem mais lento em função de planejamento, estrutura e investimento que aí sim existe um abismo.


6 – Um dos debates que mais tem se intensificado no Brasil é a distribuição desigual das cotas televisivas entre os clubes, onde há um abismo criado pela dona dos direitos de transmissão. Mais desigual ainda, em termos de proporção, são as cotas dos campeonatos estaduais. Tendo vivido isso na pele, principalmente no Paraná, Santa Catarina e principalmente Mato Grosso do Sul, tem perspectiva desse quadro melhorar? E como seria a melhor forma de distribuição na sua visão?


Eu acredito ser um tema bastante relevante esta questão. Eu acredito no modelo inglês que faz do ultimo até o primeiro ter cotas base iguais, isso torna o todo mais forte. Se quiser dar um upgrade acrescenta cota por jogo na TV e por desempenho esportivo nos últimos 5 anos.


7 – Fala-se muito pouco aqui no Brasil sobre o que é modelo de jogo. Entendendo-se que um dos fatores pra se definir um modelo de jogo está a cultura e na brasileira os técnicos são cobrados por resultados desde o primeiro jogo, como acelerar esse processo e adaptar alguns morfociclos? Seguindo a mesma linha, você é adepto à periodização tática? É possível utilizar aqui no Brasil?


Eu penso que estamos falando mais e melhor neste momento sobre estas questões conceituais no Brasil e isso é positivo e bom para o futebol brasileiro. A cultura resultadista impera ainda no Brasil, porém já conseguímos perceber clubes que conseguem resistir mais a esse tipo de mentalidade. Tenho uma expectativa que no futuro próximo nossa educação melhore e o futebol por arrasto vá nessa direção.


Eu me identifico muito com a periodização tática mas não domino todos os conceitos, eu tenho utilizado alguns princípios desta metodologia mas também considerando outras de acordo com o contexto que estou inserido. Eu conheço alguns profissionais que contextualizam muito bem teoria e prática da periodização tática no Brasil e aprendo muito com eles.


Fonte: https://triangulandofcsite.wordpress.com

Entrevista com Claudio Roberto, Técnico do C.D. Monte Carlo