Publicado em: 07/09/2020

Sobre Liderança

Uma coisa é a relação profissional Treinador - Jogador. E aí eles podem gostar ou não, porque os treinadores têm de tomar decisões. Outra coisa é a minha relação afetiva. Essa eu não quero perder nunca. Ter vivido e compartilhado emoções com pessoas que me ajudaram num determinado contexto, é para mim algo para a vida toda. O que me preenche são as amizades que faço no futebol. Nunca ganhei muito dinheiro com o futebol, mas aquilo que ganhei não troco por nada. O reconhecimento dos meus jogadores, as amizades, e o fato de se lembrarem de mim quando nos encontramos, isso não tem preço. Chegamos a um tempo em que percebemos que a amizade e os relacionamentos que temos uns com os outros são os mais importantes. Muitos treinadores nunca vão ganhar nada. Não vão ganhar títulos, mas também nunca lhes deram condições para isso. Mas nem por isso deixam de ser competentes e não deixam de ter um papel importante.

Quando se fala em ganhar, eu pergunto: E aqueles que andam a formar? E aqueles que nunca tiveram uma grande oportunidade? 

Eu aprendí que, independentemente das idéias, temos de ser flexíveis para envolver as pessoas. O mais flexível consegue controlar. E não é fazer todas as vontades. Nós vamos controlando, vamos envolvendo, tendo idéias, mas as minhas idéias só fazem sentido se tiverem retorno. Quando sentimos que, em algum contexto, as idéias não se pode aplicar, devemos ser flexíveis. Sem descaracterizar aquilo em que acreditamos, mas adaptando de maneira que as coisas funcionem. Há coisas que normalmente digo aos jogadores das minhas equipes: importa um jogar simples, prático, coletivo e inteligente.

E o que é que eu chamo de inteligência? Inteligência é, num determinado contexto, escolher o que é melhor para nós.   

Eu procuro desenvolver isso com os meus jogadores: O que é que se está a passar no jogo. Quando eu não sei o que se está a passar no jogo como é que sei o que devo fazer?

Eu costumo dar o exemplo de alguém que está perdido e pede ajuda. Pergunto onde está e ele não sabe. Se ele não sabe qualquer caminho serve. Tem de haver sempre alguma coisa que nos oriente em função do que vemos e está a acontecer. E a flexibilidade vai traçando este caminho. Quando adotamos outra postura, inflexível, as pessoas são resistentes. Assim eu não estou a ter a capacidade de comunicar, de influenciar as pessoas para elas perceberem o que eu quero. Normalmente há resistências e se há resistências é porque a comunicação não está a ser convincente.

Sobre o jogar:

Eu vejo hoje muitas restrições ao jogo, condicionado pela organização, pela questão tática, pelo adversário, por uma série de constrangimentos de que o jogador não se liberta. Ás vezes percebemos que há equipes que mesmo mais fracas, levam um gol e depois começam a jogar. Não percebo porque não o fazem mais cedo. Isto é mental, é a maneira como o treinador os faz olhar para as coisas. O jogo é transversal: há uma bola, há um adversário de um lado e do outro, há um espaço onde pode se jogar. Os fatores que podem marcar a diferença são a minha relação com o cenário e a dinâmica que queremos imprimir. Acabamos por diferenciar o adversário, o contexto e acabamos por deixar de acreditar naquilo que podemos fazer.

Eu olho sempre para o jogo da minha equipe em relação ao passado porque é isso que vai me dar a informação que vai permitir melhorar o processo. Se me condicionar com aquilo que vem a seguir, acabo por condicionar os meus jogadores. Eu acredito na inteligência do jogador. Sofremos um gol? É ruim, mas não vamos perder a organização nem as idéias, porque o jogador sabe o que o leva a resolver o problema. Eu aprendí que o mais importante é a forma como se olha para os problemas, fundamental é o estado emocional com que se olha para as coisas. Se sofro um gol e me entrego tudo é mais difícil. Se acreditar que sofrí o gol mas que ainda falta muito tempo e que ainda posso dar a volta por cima, de certeza que as coisas vão ser diferentes. Muitas vezes sabemos que o adversário é mais forte, mas há sempre hipótese de responder. Não aceito certas teorias que dizem: Fomos pragmáticos. Fechadinhos, cheios de medo, fomos lá na frente e lá conseguímos marcar um gol.

Pergunto o que é isso de pragmatismo? Como o treinamos? Isso para mim não existe. A minha equipe joga em contra-ataque e em ataque organizado. Joga em ataque rápido, também. Tudo depende daquilo que o jogo dá. E depois, quando temos a posse? Esta é a parte mais importante. Se não tiver bola, não há jogo. Falamos da tática, dos jogadores, dos adversários, disso e daquilo, mas a bola marca a diferença.

A maneira como tratamos a bola é muito importante no jogo. No processo de formação são os que tratam melhor a bola que marcam a diferença. Os que tratam melhor a bola são aqueles que têm sempre mais mercado. O que andamos a fazer na formação? Cada vez aparece menos jogadores destes. Ouve-se que já não há futebol de rua. Eu sei que não há, mas há futebol na mesma, só que nos clubes. No tempo em que os jogadores jovens estão lá e no único momento que eles têm para jogar, anda lá um individuo no apito, que é o treinador, e não os deixa fazer isto e aquilo, retira-lhes o direito de ser protagonista. Eu falo nisso e alguns olham para mim desconfiados. Mas o que é certo é que, mais tarde, andamos á procura destes jogadores. Ás vezes os jogadores me dizem: Coach, quando não temos a bola temos de ter mais cuidado!. Eu sei que temos de ter mais cuidado, mas e com bola como as coisas se resolvem. 

A profissão de Treinador:

Há treinadores que ganham muitos títulos. Há treinadores que não ganharam tanto, mas as equipes deles jogavam de uma forma que marcava, pelas idéias, e pelo estilo. O tipo pode não ter vencido tanto, mas havia ali qualquer coisa que fazia a diferença. Eu costumo dizer que há treinadores que se servem dos jogadores para fazerem carreira e alguns ouvem dos jogadores: “Coach, eu acho...E eles respondem: Tu aqui não acha nada, está aqui para fazer o que eu mando!. Há treinadores assim e eu respeito. Depois há os treinadores que ajudam os jogadores a fazer carreira e que acabam também eles por fazer carreira. Porque está inerente. É nisto que eu acredito. 

Marketing Pessoal:

Sempre gostei de filmar os meus jogos. Cada jogo tem uma história. Sou muito agarrado ao que me toca e a cada grupo pelo qual eu passo. O que me dá mais prazer é efetivamente ver aquilo que os jogadores não faziam e agora fazem. E eles poderem ver isso registrado. O contexto em que eu estava não me permitia alcançar muitos títulos, por isso, para mim, os meus títulos, o que me realizava, era ajudar os meus jogadores. Eu percebí então que tinha que divulgar o meu trabalho e ao mesmo tempo eu estava a ser valorizado porque eu conseguia que os meus jogadores se destacassem. Compreendí, através das experiências de vida, que temos de dar valor à nossa atividade. Comecei a dizer-lhes: O que é que vocês estão a fazer de diferente, o que é que vocês vão vender?. O primeiro grande objetivo de um jogador quando chega a um clube é o de corresponder ás expectativas do clube que o contratou, fazer uma grande temporada para dizer, no fim: Sim, o clube está satisfeito com o que fiz, quer que eu continue, já tenho emprego!. Agora, se chamei à atenção de mais alguém, se valorizei o meu jogo, então já tenho mais propostas, já tenho possibilidades de negociar. Isto é a lei da vida. Todos andamos à procura do melhor. Se sou competente, se eu me envolvo, se marco a diferença, se tenho propostas vou subir na vida, vou ter capacidade de negociar. O meu site oficial foi interessante para mim porque, além de divulgar o meu trabalho serviu para registrar aquilo que era importante. 

Claudio Roberto - algumas idéias do Treinador