Publicado em: 05/12/2020

Liderança

Uma coisa é a relação profissional Treinador-Jogador. E aí eles podem gostar ou não, porque os treinadores têm de tomar decisões. Outra coisa é a minha relação afetiva enquanto Claudio Roberto. Essa não quero perder jamais. Ter vivido dias seguidos e compartilhado emoções com pessoas que me ajudaram num determinado contexto, é para mim algo para toda a vida. O que me preenche são as amizades que faço no futebol. Nunca ganhei muito dinheiro com o futebol, mas aquilo que ganhei não troco por nada, o reconhecimento dos meus jogadores, a amizade que criei com alguns, o fato de se lembrarem de mim quando nos encontramos. Nos lembramos dos bons momentos que vivemos juntos. O futebol para mim é uma maneira de estar na vida. Os valores do futebol, da vivência em grupo, as trocas de experiências e as relações fortes. É isso que faz a diferença. Há sempre alguém que confunde estas relações, pode até ficar chateado e não gostar. Mas no geral o resultado é muito positivo.

Chegamos a uma idade em que percebemos que a amizade e os relacionamentos que temos uns com os outros são os mais importantes. Os ressentimentos e as diferenças são coisas que não entram na minha maneira de ser. Na minha carreira é isso que pretendo, quero deixar a minha marca. Muitos treinadores não vão ganhar nada. Não vão ganhar títulos, mas também nunca lhe deram condições para isso. Mas não deixam de ser competentes, não deixam de ter um papel importante. Quando se fala em ganhar, eu pergunto:

E aqueles que andam a formar?

E aqueles que nunca tiveram uma grande oportunidade?

É verdade que para ter oportunidades, por vezes é necessário fazer com que as coisas aconteçam. Eu sempre ouví dos meus colegas Treinadores:

Estou á espera que o meu telefone toque. Alguns acham piada quando digo que eu não espero o meu telefone tocar; eu vou lá e coloco a tocar. Tudo depende de mim.

Eu aprendí que independente das idéias, temos que ser flexíveis para envolver as pessoas. E não é fazer todas as vontades. Nós vamos estimulando, vamos envolvendo. Eu tenho idéias, mas as minhas idéias só fazem sentido se tiverem retorno. Quando sentimos que em algum contexto, as idéias não se pode aplicar, devemos ser flexíveis. Sem descaracterizar aquilo em que acreditamos, mas adaptando de maneira a que as coisas funcionem. Há coisas que normalmente digo às minhas equipes: importa um jogar com coragem, de forma coletiva e essencialmente inteligente. E o que é que eu chamo de inteligência? Inteligência é num dado contexto, escolher o que é melhor para nós.

Eu desenvolvo isso com os meus jogadores: o que é que se está a passar no jogo. Quando eu não sei o que está a passar no jogo como é que sei o que devo fazer?

Eu costumo dar o exemplo de alguém que está perdido e pede ajuda. Perguntam-lhe onde está e ele não sabe. Se ele não sabe qualquer caminho serve. Tem que haver sempre algo que nos oriente em função do que vemos e que está acontecendo. A flexibilidade vai traçando este caminho. Quando adotamos outra postura, fica inviável, as pessoas são resistentes. Assim eu não estou a ter a capacidade de comunicar, de influenciar as pessoas para elas perceberem o que eu quero. Normalmente há resistências e se há resistências é porque a comunicação não está a ser convincente.

 A minha visão do Jogo:

Eu vejo muitas restrições ao jogo, condicionado pela organização, pela questão tática, pelo adversário, por uma série de constrangimentos de que o jogador não se liberta. Às vezes percebemos que há equipes que, mesmo mais fracas, levam um gol e depois começam a jogar. Não percebo porque não o fazem mais cedo. Isto é mental, é a maneira como o Treinador os faz olhar para as coisas. O jogo é transversal: há uma bola, há um adversário de um lado e do outro, há duas traves e há um espaço onde se pode jogar. Os fatores que podem marcar a diferença são a minha relação com o cenário e a dinâmica que vou imprimir. Acabamos por diferenciar o adversário, o contexto e acabamos por deixar de acreditar naquilo que podemos fazer. Eu observo o jogo da minha equipe em relação ao passado porque é esse que me vai dar a informação que me vai permitir melhorar o processo. Se me condicionar com aquilo que vem a seguir, acabo por condicionar os meus jogadores. Eu acredito na capacidade mental do jogador. Sofremos um gol? É mau, mas não vamos perder a organização nem as idéias, porque o jogador sabe o que o leva a resolver o problema. Eu aprendí que o mais importante é a forma como se olha para os problemas, fundamental é o estado emocional com que se olha para as coisas. Se sofrer um gol cedo e me entrego, aí fica mais difícil. Se acreditar que sofrí o gol mas que ainda temos tempo e que ainda podemos dar a volta por cima, de certeza que as coisas vão ser diferentes. Muitas vezes sabemos que o adversário é mais forte, mas sempre há hipóteses de vencer.


Não aceito certas teorias que dizem: “Fomos pragmáticos”. Fechamos a casinha, cheios de medo, fomos lá na frente e lá conseguímos marcar um gol. Ganhamos de 1-0 e fomos pragmáticos. O que é isso pragmatismo? Como o treinamos? A minha equipe joga em contra-ataque e em ataque organizado. Joga em ataque rápido, também. Tudo depende daquilo que o jogo dá. 


Esta é a uma parte importante. Se não tiver a bola, não há jogo. Falamos de tática, dos jogadores, dos adversários, mas a bola é que marca a diferença.

A maneira como tratamos a bola é a importância que damos ao jogo. No processo de formação são os que tratam melhor a bola que marcam a diferença. Os que tratam melhor a bola são aqueles que têm sempre mais mercado. 

Cada vez aparecem menos jogadores talentosos. Ouve-se que já não há futebol de rua. Eu sei que não há, mas há futebol na mesma, só que nos clubes. No tempo em que os meninos lá estão e no único momento que eles têm para jogar, anda lá um fulano de apito, que é o treinador, e não os deixa fazer isto e aquilo, retira-lhes o divertimento do jogo. Mas o que é certo é que, mais tarde, andamos à procura destes jogadores. Às vezes os meus jogadores me dizem: “O Coach, mas quando não temos a bola temos de ter mais cuidado. Eu sei que temos de ter mais cuidado, mas é com bola que as coisas se resolvem. Na indústria do futebol, que é um espetáculo, estamos a andar para trás.

Há treinadores que não ganharam tanto, mas as equipes deles jogavam de uma forma que marcava. Essa é uma marca importante. É pelas idéias, é pelo estilo. O tipo pode não ter vencido tanto, mas havia alí algo que fazia a diferença. Eu costumo dizer que há treinadores que se servem dos jogadores para fazer carreira e alguns ouvem dos jogadores: “O Coach, eu acho”. E eles respondem: Tu aqui não acha nada, está aqui para fazer o que eu mando. Há treinadores assim e por mim tudo bem, eu os respeito. Depois há os treinadores que ajudam os jogadores a fazer carreira e que acabam também eles por fazer carreira. Porque é inerente. É nisto que eu acredito, eu me enquadro nessa categoria.

O que me dá mais prazer é efetivamente ver aquilo que os jogadores não faziam e agora fazem. E eles poderem ver isso registrado. O contexto em que eu estava não me permitia alcançar muitos títulos, por isso, para mim, os meus títulos, o que me realiza, é contribuir para os meus jogadores. Compreendí através das minhas experiências, que temos de dar valor ao nosso esporte. Futebol é uma profissão que pode fazer muito por muita gente. Tem o poder da transformação.

Comecei a dizer-lhes:

O que é que você faz de diferente, qual é seu diferencial?

O primeiro grande objetivo de um jogador quando chega a um clube é o de corresponder às expectativas do clube que o contratou, fazer uma grande temporada para dizer, no fim: O clube está satisfeito com o que fiz, quer que eu continue, já tenho meu trabalho. Agora, se chamei à atenção de mais alguém, se valorizei o meu jogo, então já tenho mais propostas, já tenho possibilidades de negociar. Isto é a lei da vida. Todos andamos à procura do melhor. Se sou competente, se eu me envolvo, se faço a diferença, se tenho propostas vou subir na vida, vou ter capacidade de negociar.

 

Algumas idéias do Treinador Claudio Roberto